
Cidade, Risco e Estrutura Ecológica
Cidade, Risco e Estrutura Ecológica
Assisti à sessão “Clima, Água, Solos e Riscos”, no Fórum do Território (FAUP), onde os Professores Paulo Farinha Marques e José Miguel Lameiras apresentaram uma reflexão rigorosa sobre os desafios que as alterações climáticas colocam à cidade contemporânea. A discussão centrou-se na permeabilidade dos solos, na gestão das águas pluviais e na necessidade urgente de reconfigurar o planeamento urbano a partir da recuperação das funções ecológicas do território.
A reflexão reforçou uma ideia essencial: água, solo e vegetação devem ser reconhecidos como verdadeiras infraestruturas urbanas, estruturantes, permanentes e indispensáveis e não como elementos residuais ou acessórios do desenho da cidade. A persistência de modelos assentes na impermeabilização extensiva do solo e na canalização da água evidencia a dificuldade em integrar a dinâmica ecológica e hidrológica nos processos de planeamento.
A cartografia territorial da Região Centro torna essa realidade particularmente visível. A sobreposição de zonas inundáveis, rede hidrográfica, corredores ecológicos, condicionantes ambientais e ocupação urbana revela que o território não é um espaço neutro: é um sistema estruturado por dinâmicas naturais que estabelecem limites claros à urbanização.
No vale do Mondego, a proximidade e, em certos casos, a sobreposição entre áreas construídas e leitos de cheia ajuda a compreender a recorrência das inundações. O risco é conhecido, mapeado e institucionalizado; o que permanece frágil é a sua tradução coerente nas decisões territoriais.
Reconhecer o território como uma estrutura orgânica, portadora de memória ecológica e histórica, constitui hoje uma ferramenta crítica para antecipar riscos e promover uma verdadeira resiliência urbana, sobretudo num contexto de intensificação de eventos climáticos extremos. Projetar a cidade implica, necessariamente, aprender a ler o solo sobre o qual se constrói.
