
Espaço e Justiça: o Urbanismo como Compromisso Coletivo
Espaço e Justiça: o Urbanismo como Compromisso Coletivo
Em La città dei ricchi e la città dei poveri (2013), Bernardo Secchi propõe uma leitura rigorosa e eticamente comprometida das desigualdades urbanas contemporâneas. O autor demonstra que a clivagem entre “ricos” e “pobres” deixou de ser apenas uma questão social ou económica para se tornar uma condição profundamente territorializada. A forma como se desenham as infraestruturas, se organizam os sistemas de mobilidade, se distribuem os equipamentos coletivos e se qualifica o espaço público determina, de modo direto, quem pertence e quem é excluído da vida urbana.
Para Secchi, o urbanismo não é um sistema passivo, ou seja, participa ativamente na produção dessas desigualdades, e possui igualmente a capacidade de as contrariar. A cidade é, assim, entendida como um campo de responsabilidade disciplinar e política, onde decisões aparentemente técnicas, tais como os traçados viários, a localização de serviços, o desenho do espaço público, a identificação dos regimes de solo configuram oportunidades ou barreiras à construção de uma sociedade mais equitativa.
Num momento político particularmente sensível, como o que Portugal atravessa em contexto pré-eleitoral, marcado por discursos simplificadores e pelo crescimento de posições populistas, a reflexão de Secchi adquire renovada pertinência. Recorda-nos que a justiça social não se constrói apenas através de programas económicos ou declarações de princípio, mas também, e de forma muito concreta, no território: na forma como se planeia, se regula e se cuida da cidade.
Pensar a cidade como projeto coletivo implica reconhecer o urbanismo como instrumento de mediação democrática. Defender uma cidade inclusiva, acessível e partilhada é, nesse sentido, um ato simultaneamente técnico, cultural e político, uma escolha consciente sobre o modelo de sociedade que desejamos construir.
